Lovecraft e o Velho do Papelão
Capitulo I – Há muito tempo atrás, no futuro.

Sumário
Em 1919, H. P. Lovecraft tropeça — literalmente — em uma anomalia temporal disfarçada de velho vendedor de bugigangas.
O que parecia ser apenas objeto antigo antiga logo o transporta para um mundo onde suas palavras moldam a realidade... e seus piores pesadelos ganham vida. Ao lado de uma viajante temporal de cabelos roxos e humor peculiar, Lovecraft terá que sobreviver a monstros, paradoxos e tavernas mal-assombradas, enquanto tenta cumprir a missão mais improvável de sua vida: escrever um livro em menos de um dia. Bem-vindo ao caos narrativo da Anomalia nº 3.

#H. P. Lovecraft #Time TravelDimension Travel #Armas Vivas #Horror Cósmico #Akáshica
Notas:
Esta é minha primeira fanfic/ficção original publicada. A ideia surgiu misturando o horror cósmico de Lovecraft com o absurdo de viagens no tempo e universos paralelos — com o Velho do Papelão do Thiago Spyked. Isso me ocorreu assim que li o primeiro quadrinho dele. E me acompanho por alguns anos até que eu decidi escrever aqui. O resultado é um passeio interdimensional por mitos, livros e armadilhas narrativas. Feedbacks são mais do que bem-vindos. Boa leitura e prepare-se para o inesperado!

1200 a.c.

Sob o sol impiedoso do deserto, nos arredores de Damasco, um homem corria desesperado, tentando salvar a própria vida. Nos braços, carregava um embrulho envolto em trapos sujos e rasgados. Mas ali havia mais do que poeira, suor e sangue — havia algo perverso, gotejando pelo caminho, atraindo atrás de si uma presença invisível e ameaçadora.

Com tropeços e empurrões, o homem — pálido, aterrorizado — buscava refúgio no coração da cidade, mas ali não havia abrigo, não havia salvação. No meio de uma feira movimentada, ao meio-dia, a criatura o alcançou. E ali, diante da multidão, o despedaçou sem esforço.

O corpo partido ao meio espalhou sangue no ar — e parte dele respingou sobre a entidade, revelando vagamente sua forma. Pela primeira vez, podia-se ver algo daquilo que antes era invisível. A visão provocou um pânico avassalador. Gritos tomaram conta da praça. Adultos corriam em todas as direções. Crianças, abandonadas, choravam.

Então, subitamente, uma tempestade de areia ergueu-se do nada, como convocada por alguma força antiga. Em poucos segundos, a criatura desapareceu. O silêncio caiu como uma pedra. A poeira baixou. E aos poucos, os esquecidos voltaram para buscar as crianças deixadas para trás.

No chão, ao lado do corpo dilacerado, um livro caiu do embrulho. Sua capa, entreaberta, revelava um rosto grotesco, de feições monstruosas. Um velho envolto em um manto espesso e bege, usando calças azuis que lembravam jeans, aproximou-se lentamente. Sem pressa, abaixou-se para pegou o livro.

Providence, Rhode Island – 1919

Era mais uma noite úmida e escura na velha Providence. Ao longe, ouvia-se uma pequena sineta tilintar, anunciando a abertura de uma porta. Na vitrine embaçada de uma livraria, refletia-se a sombra esguia de um homem, imóvel diante dos livros luxuosos em exposição — mas ali havia mais que literatura. Havia presságios.

A figura desceu pelas calçadas de pedra polida, contornando poças d’água, caixas e barris empilhados. Era uma típica rua portuária: carroças encostadas, mercadorias esquecidas e muito daquele feno velho e úmido usado para amortecer cargas — agora cheirando a madeira apodrecida, bolor e peixe estragado.

Lovecraft seguia seu caminho, perdido em pensamentos, quando um gato se lançou sobre ele de repente. No susto, pisou com força em uma poça traiçoeira — como se o destino a tivesse colocado ali de propósito. Teria sido só um contratempo banal… não fosse o buraco na sola do sapato, que logo encharcou seu pé. Praguejou o maldito gato e, encostando-se a um poste de luz, retirou o calçado molhado com raiva, revelando um furo onde caberia seu polegar com folga.

Foi então que, mirando através do buraco, como se fosse uma luneta mágica, notou algo estranho naquela rua mal iluminada. Por entre caixas, um velho o observava em silêncio. Lovecraft, intrigado, se aproximou mancando, sapato na mão, pisando com cautela no calcanhar para evitar o frio das pedras.

Ao espiar sobre as caixas, viu diversos artefatos dispostos de forma quase ritualística: uma caneta bico de pena, um relógio antigo e um livro velho — sua capa estampava uma face grotesca, como se a pele de um homem tivesse sido esticada e costurada ao couro.

Apontando com o sapato, Lovecraft perguntou:
— Está vendendo estas coisas, velho? Não é meio tarde para comércio?

Na ruela silenciosa, só havia o velho, um par de gatos e ele mesmo.

O ancião respondeu, com voz seca:
— Escolha.

Lovecraft hesitou, mas pegou a caneta e indagou:

— Quanto custa?
— Não está à venda. É um empréstimo. O senhor vai escrever um livro para mim. Traga de volta amanhã, nesta mesma hora.

O escritor largou o sapato para examinar melhor a peça, mas, ao erguer os olhos para questionar novamente, o velho havia desaparecido. Apenas o som de um vento súbito ecoava pela rua vazia.

— Escrever um livro, você disse? ..Mas que diabos...?

Olhou em volta. Só restava um gato no cio, que agora se enroscava em suas pernas. Vasculhou atrás das caixas, revirou-as, mas não havia mais vestígio do velho nem dos objetos.

Ao chegar em casa, serviu-se de uma taça de vinho tinto seco. Sentado em sua poltrona, decidiu escrever um pouco com a nova caneta. Afinal, não conseguiria dormir depois daquilo. Tentaria, ao menos, distrair a mente.

Na folha, retomou a história em que vinha trabalhando: uma antiga taverna, ponto de encontro entre homens comuns e criaturas de outros mundos — um entreposto interdimensional. As páginas já cobriam a mesa como uma colcha improvisada.

Levantou a taça mais uma vez... mas o vinho não desceu. Intrigado, pensou que estivesse vazia. Foi até a garrafa, mas o vinho nela também se recusava a cair. Levantou o copo contra a luz da escrivaninha e recuou, assustado. Algo estava errado.

O quarto começou a girar. A realidade se contorcia. Um torpor o envolveu como um cobertor denso. E então, tudo escureceu.

Despertou espreguiçando-se, como de costume. Mas aquela não era sua mesa. Era redonda, pequena, feita de madeira velha e lascada. O chão rangia. As paredes estavam cobertas de mofo. Estava em uma taverna decadente.

Saltou da cadeira.
— Que lugar é esse!?

O taverneiro, rindo, o ignorou enquanto recolhia algumas garrafas quebradas.
— Vá embora, preciso limpar essa espelunca.

Lovecraft, ainda confuso, pegou do chão a caneta. A lembrança começou a voltar.

Passou pela porta da taverna, decidido a sair dali. O sol lá fora era fraco, indistinguível da luz de uma lâmpada mortiça. Mas, ao atravessar o limiar... viu um clarão. E num piscar de olhos, estava de volta à sua mesa redonda.

— O quê...?! — exclamou.

O taverneiro, atrás do balcão, lançou lhe um olhar cansado:
— Ainda está aí? Já mandei ir embora.

— Não... o senhor não entende! Eu não posso sair!
— Ora, e por quê não!?
— O senhor não vai acreditar... mas eu escrevi esse lugar. Isso aqui... não é real.

O velho franziu o cenho.
— Como é?

— Seu nome é Joy. Este lugar recebe criaturas de outros mundos. Eu inventei isso. Está tudo escrito... — Lovecraft mal conseguia controlar o tom nervoso.

O taverneiro ficou em silêncio por um instante. Então, puxou um machado enferrujado debaixo do balcão.

— Então é você! O maldito que vive mandando aquele polvo nojento bagunçar minha taverna!
— Não! Eu só escrevi...!
— Pois é! Você escreveu essa porcaria toda! O escritor! Eu devia te partir ao meio!

E lançou-se sobre a mesa com o machado erguido, desferindo um golpe tão violento que partiu a madeira ao meio — exatamente onde Lovecraft estivera sentado. Que rolando se abrigou embaixo de outra mesa.

Outros poucos que estavam meio sóbrios no salão saíram correndo assustados, sobrando somente os bêbados pelo chão.

Quando o taberneiro ergueu novamente seu enorme machado mirando seu novo abrigo, um raio vermelho vido de fora atravessou o salão e o atingiu em cheio, fazendo ficar paralisado e caindo de costas. O machado cravou no chão rangente por conta de seu peso.

Na porta do salão via-se adentrando uma jovem garota de cabelos curtos e roxo, vestindo uma túnica pesada e escura que cobria todo seu corpo. Passou o olhar pelo salão identificando seu alvo e em seguida Lovecraft embaixo da mesa.

- Venha comigo se quiser viver… - Mal finalizou de pronunciar estas palavras e foi lançada para dentro do salão por uma enorme bota. O impacto fez ela desmaiar. E sua estranha arma foi parar aos pés de Lovecraft.

De volta à porta uma figura de proporções sobre humanas apareceu. Se curvando para caber na entrada, parecia um grande homem, mas sua cabeça era similar à de um polvo. Suas roubas pareciam uma capa de chuva comumente usada por pescadores, sujas e fedendo a peixe. Atrás dele se seguia uma turba deformada de “homens peixes”.
- Onde está o escritor!? – Bradou o polvo.

Lovecraft pegou a arma no chão, sem olhar bem para ela. E aponto para a criatura.
- Não se aproxime de mim criatura horrenda!

A arma tinha uma estranha trava orgânica que se unia ao portador, como se fosse uma cauda de escorpião, ele sentiu uma fisgada no pulso.

- Que diabos é isso!? – Olhou para a arma e viu que ela drenava seu sangue. Havia partes metálicas e partes transparentes como se fosse uma a coisa viva.

- Não atire!!! – grito a garota, se levantando do chão. E justamente por conta do grito ele disparou.

O grande pescador polvo tombou imóvel, e atrás deles alguns também caíram, o raio foi muito mais forte do que o primeiro, mas além disso o polvo era enorme. Os que não receberam o raio recebeu seu peso.

Do outro lado do salão Lovecraft também tombava. A arma havia sugado seu sangue para criar o projétil paralisante, e como ele não sabia usar, sua pressão caiu. E ele junto.

Rapidamente a garota de cabelos roxos agarrou Lovecraft e o arrastou para detrás do balcão. E de seu pulso esquerda revelou um conjunto de teclado e visor, onde digitou algumas coordenadas. E a partir de uma pequena esfera flutuante que havia se desprendido de seu bracelete, começou a imprimir, por laser neon, uma porta azul que mais parecia de madeira depois de finalizada.

Ela abriu a porta, enquanto os marujos gritavam: - Peguem eles!! – A arrastou Lovecraft para dentro da estranha porta.

Pendurada em seu pulso a arma permanecia. Enquanto a garota dava um sumiço na porta, e agora estavam de volta em sua casa, de volta a Providence.

- Ai! Minha cabeça… - Agonizou Lovecraft enquanto tentava se levantar. – Que pesadelo. – Concluiu ele.

- Que nada cara! Fui tudo real. – Disse a garota se servindo de vinho. – Quer um copo?

- Vou querer sim, por favor. – e olhando em volta.

- Como chegamos aqui?

- Não temos muito tempo! Então preste bem atenção no que vou te dizer. Eu sou tipo uma policial do Tempo, saca? E você entrou em contato com uma Anomalia, chamamos de Anomalia nº 3 e…

- Espera! Policial mulher? Eu vi isso no jornal há alguns anos… é sério…?

- Do tempo! Do futuro! Você não está acompanhando. Pensei que seria mais rápido, Sr. Lovecraft.

- Tá começa de novo! – Dando um grande gole em sua taça de vinho.

- Ok! A caneta que o senhor pegou é amaldiçoada. Ela te leva para onde ou sobre o que estiver escrevendo, e também é capaz de influenciar os caminhos daquela dimensão.

- Mas eu inventei aquilo… a taverna, os monstros…

- Sim é não! A criatividade é um emaranhando de todas as informações do universo. Então o senhor seria um ótimo receptor. Mas tudo que o ser humano consegue imaginar existe, de fato, em algum lugar no universo tento poucas variações verdadeiramente criativas, por assim dizer.

- E essa maldição pendurado no meu braço? – só agora se deu conta da arma que não se separar dele.

- Há isso é uma biotecnologia, só vai soltar quando você relaxar.

- Deveria ter soltado quando eu desmaiei, não?

- Não, porque você fez um uso excessivo e ficou com medo e ela também desmaiou.

- E como arranco!? – Disse já puxando.

- Não arranque. Vai te machucar ou danificar a arma, ou os dois. Relaxa.

- E todo mundo no futuro tem cabelo roxo?

- Não… é coisa de família.

- Você ainda não disse seu nome, senhorita. E como me conhece?

- Eu li seus livros… droga, não devia ter falado isso…

- Livros? Mas ainda…

- Tudo bem. Presta atenção. Sou do futuro, lembra? E não posso falar muito sobe isso. Vim te ajudar a se livrar desta maldição. E vou embora, só isso.

Certo, mais…

- Precisamos nos concentrar ou o senhor morre. Ok?

- ok… livros, ehn.

- Bom, meu nome é Alice23, pertenço a uma organização que polícia atividades atemporais…

- Seu nome é um número? No futuro somos feitos por máquinas ou algo assim?

- Não! ...Presta atenção!

- Aquele velho que o senhor encontrou é a Anomalia nª3, comumente conhecido como Velho do Papelão.

- E o que ele é? – Se interessou Lovecraft.

- Não sabemos, por isso usamos o termo “anomalia”. Mas já estamos atrás dele há algum tempo. – concluiu Alice23 – Agora me diga, o que ele lhe deu?

- Ah! Foi esta caneta. – mostrou instintivamente como se fosse para Alice23 segurar, mas ela não o fez, apenas olho.

- Não vou tocar nisso. Guarde…. E o que ele lhe disse? – Tomou um grande gole de seu vinho. Ela podia sentir a maldição naquela pena.

- Bom… algo sobre eu escrever um livro… mas… tenho que devolver a caneta amanhã… não dá para escrever um livro em um dia.

Alice23 ficou muito pensativa.

- Como que pode..? Ele sabia que eu viria então. – Concluiu ela.

- Como assim? – Questionou Lovecraft.

- Bom, não dá mesmo para escrever um livro em um dia. Mas eu posso viajar no tempo, então… de quantos dias você precisa?

- Eu não sei… nem sei o que escrever.

- O que faz para ter ideias?

- Bom… gosto de caminhar, ir à biblioteca ou alguma livraria sempre ajuda.

- Ok! Vou te levar para Akasha.

- E o que seria isso? – Questionou Lovecraft.

- É uma biblioteca. Tem informações de absolutamente tudo, inclusive diversas ramificações do futuro.

- Vou poder explorar meu futuro?

- Claro que não, é proibido. Mas vai achar inspiração por lá.

Alice23 largou o copo por sobre a escrivaninha e traçou a rota em seu bracelete, e logo uma nova porta começou a se desenhar. Desta vez era amarela.

- Ah! Então foi assim que viemos parar aqui?

- Sim, eu te trouxe. Venha. - Alice23 abriu a porta rapidamente.